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Amasando índias e seus atuais descendentes

(Foto: Reprodução)

O título dessa crônica pode não ser tão atrativo, mas já foi um ato muito comum no passado. No princípio, depois da chegada dos europeus aqui na América em 1492 (alguns juram que foi bem antes), os Jesuítas no século seguinte (XVI) tinham como objetivo principal “amansar” os índios para presenteá-los ao Portugueses e Espanhóis como se fossem cavalos selvagens amansados (existe até uma técnica para domar equinos chamada “doma índia”). A função era que através da religião, estes nativos ficassem mais receptivo na hora da aproximação com os recém chegados no Mundo Novo, salvando suas almas e substituindo suas antigas crenças pelo Cristianismo. Além do genocídio físico houve também a destruição cultural. Os índios eram forçados a viver nas Vilas, muitas vezes contra sua vontade num sistema escravo. Há uma modificação do espaço e do espírito desses indivíduos, ou seja, onde eles ficarão e como vão se comportar. Agora os índios seguiam regras, tempo, trabalho, alimentação diferente, tudo diferente. Os Jesuítas impuseram essas novas normas em seu sistema autoritário, sem muito romance como é abordado em livros e filmes.

Na minha região (levando em conta que Nossa Senhora Aparecida fazia parte de Itabaiana até 1933) existem poucas igrejas Jesuítas, indo para Aracaju se vê algumas com suas torres e que provavelmente haviam sinos nelas. Estes sinos funcionavam como relógios, marcando a hora de acordar, trabalhar, comer, dançar e outras coisas. O índio, com essas novas regras, deixam de ser um indivíduo “natural” em seus atos para se tornar um “programado”. Na Europa começam a surgir os relógios nas igrejas e serviam para que todo mundo fosse trabalhar na mesma hora, e logicamente que a produção fosse maior. Não demorou muito para que chegassem por aqui no Brasil, mas em Itabaiana demorou até 1913 para que a Igreja Matriz de Santo Antônio e Almas recebesse seu cronômetro (coincidentemente trabalhando em sincronia ao sino já existente), introduzindo o sentido de Tempo aos moradores, já que nem todos tinham relógio em casa.

Mas, no princípio o agreste sergipano era inundado por uma grande mata, as “Matas de Itabaiana Grande”, ia do Sertão de Boca da Mata até a capital São Cristóvão, como estradas Reais cortando elas e algumas pequenas vilas interligadas pelas mesmas. Voltando um pouco no tempo, reza a lenda que o pai de Simão Dias, um guerreiro francês, teve contato físico com uma Índia local no ano de 1593/4, onde embaixo de uma quixabeira (onde hoje fica a igreja matriz católica da cidade) nasce o primeiro itabaianense, Simão Dias (Franco ou Francês?). Mas, como se deu o caso de amor entre o Francês e a Índia? Não se sabe ao certo, mas pode não ser este o primeiro caso de “amansamento de índias” de nossa região, já que outros estiveram antes desta data. A índia morreu de parto, o pai morreu um ano depois, onde a criança (pela lenda) foi amamentada por uma cabra. Não duvido muito, mas provavelmente uma família indígena (pode ser a da mãe) cuidou dele até sair daqui aos 47 anos e fundar a cidade de Simão Dias, antiga Anápolis.


Mas, o que seria exatamente isso tudo? Algumas pessoas mais antigas falam que seus avôs e bisavôs “amansavam” nativas que ainda viviam em nossa região no final do século XIX e me deram algumas pistas para tentar entender e explicar. Muitos índios trabalhavam como caseiros em fazendas, cuidando de gado, da lavoura e de afazeres domésticos. Com o fim da escravatura e mesmo antes existiam esses caseiros em trabalho não-escravo, mas usando uma política de “meia” onde dividiam a produção com o dono da lavoura, principalmente o milho e a mandioca. As casas de farinha eram comuns, tanto quanto as casas da fazenda, sempre tinha farinhada (hoje, cada vez mais raras). Esta é uma grande herança dos indígenas em nossa região. As filhas mulheres, algumas vezes eram guardadas a sete chaves para um futuro matrimônio e desde crianças trabalhavam na lavoura e nas casas de farinha. Os familiares aceitavam casamento, contanto que fossem entre famílias de nível social próximo e de mesma cultura, mas muitas vezes os filhos dos fazendeiros se aproveitavam dessas jovens e não eram raros casos de estupros e de gravidez indesejada. Mas, estas índias já eram “mansas”, indiretamente conviviam com a cultura branca e aprendia o modo ibérico de se vestir, de se comunicar e de comportamento. Mas, nem todos estes descendentes de índios moravam como funcionários, alguns tinham suas casas afastadas, independentes, muitas vezes próximas a lagos e rios e com sua plantação ao lado para sua subsistência. Assim como ainda hoje temos pessoas morando em casas de taipa, bastante afastadas dos centros urbanos e ainda “tocando” suas roças e criando seus animais para o sustento. Estes grupos isolados podem ter fundado povoados como “Matapoã”, “Terra Vermelha” e outros agrupamentos que, tendo as famílias crescendo, vieram a aumentar séculos atrás e ainda hoje mostrando traços indígenas. Mas, o amansamento era comum, assim quando se desejava ir em busca de uma esposa ou um objeto para se aproveitar. Alguns caixeiros, cangaceiros e outros que tinham um certo poder financeiro ou com armamentos, faziam “furtos humanos” para seu deguste.

Geralmente essas sequestradas eram valentes, criadas no mato, linguagem pouca, apego familiar muito grande, portanto não era muito fácil “domar” essas índias (muitas até com 12 ou 13 anos de idade) e eram abusadas sexualmente até que, através da força, cediam e concordavam em acompanhar seus “donos”. Algumas delas nem traços indígenas tinham mais por causa da miscigenação secular, só o afastamento dos centros urbanos, dos centros “modernos” desde que nascera, sem ter muito contato com dinheiro, comércio, religião, brancos e violência. Afastadas da família, tentavam ao máximo aprender os hábitos do opressor e buscar uma liberdade, a fim de que pudesse ter um pouco de paz. Quem executa um trabalho magnífico em termos fotográficos em nossa região é o Vicente José, ele que busca cada vez mais o primitivismo de nossos moradores dos povoados, consegue muitas vezes encontrar traços indígenas neles, a exemplo de uma família que visitei e vive isolada no povoado Ribeira, com um linguajar deficiente, pouca escolaridade, uma pobreza visível e traços indígenas nos descendentes mais jovens. Vicente também me confessou que na Serra do Bico, fronteira entre Itabaiana e Macambira foi palco de um massacre de índios há muito tempo, muitos portugueses treinavam tiro ao alvo com os nativos e que até hoje vestígios de ossadas se encontra nessa elevação a poucos quilômetros de Itabaiana.

Este tema pode explicar os famosos “Tabaréus” do Saracura, pode explicar essa grande estratégia multicultural que vivemos em Itabaiana e que cada vez mais mostra sua face verdadeira, uma face cada vez mais cultural. Quem anda pelos povoados e vê crianças brincando com objetos de barro, feijão ainda no pé secando pendurado no alpendre, redes artesanais, passarinhos pendurados em gaiolas artesanais, comida feita na fogueira, panelas de barro, casas com cobertura de palha, meninos com hábitos de passar o dia pelados (mesmo tendo roupas), muito afastados dos centros urbanos é grande campo de estudo. Não sou antropólogo nem sociólogo, mas sei analisar padrões e sei que tem mais coisas nessa história do que eu apresentei aqui. Esperemos que alguém mais capacitado vá em busca de detalhes, as portas estão abertas agora. Nossa Serra de Itabaiana foi testemunha ocular de tudo. Boa sorte!

Por Robério Santos
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