A inexpressiva torcida brasileira e outros problemas
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| (Foto: Jornal de Brasília) |
Isto é assim também pelo fato de serem os ricos empresários quem mais recebem isenções de seus impostos com o pretexto de que vão contratar mão de obra da região onde se instalaram, o que só acontece para uma pequena parcela dos trabalhadores que ali residem. Além de que são também estes, mais abastados, os maiores sonegadores de impostos. Como bem podemos inferir da obra “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, escrita pelo filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, a concentração de riquezas nas mãos de poucos tem por fonte uma desigualdade.
Através deste apanhado reflexivo observamos que sendo os mais pobres quem mais contribuiu para Copa do mundo de futebol, foi e serão estes os quais menos irão fazer uso de suas benesses, pois não possuem o dinheiro necessário para pagar os altos preços praticados nesse evento (deslocamento, estadia, ingressos e alimentação dentro e fora dos estádios).
Sobre os que podem pagar os honorários que permeiam os jogos da Copa, é facilmente visível que estes, em sua esmagadora maioria, nem são pobres nem típicos torcedores fanáticos pelos seus clubes, pois, bem diferente dos que sempre que podem, e com algum sacrifício, acompanham seus times, eles não tem tradição e costume de torcer de fato – com a abnegação que isso exige – pela equipe do coração.
Os questionamentos, feitos inicialmente por alguns comentaristas de televisão, possuem, ao menos, uma resposta que pode ser dada através de uma detida comparação entre quem frequenta os estádios de futebol cotidianamente e quem vai de modo sazonal por causa dos mega eventos. Estes últimos não possuem o traquejo inerente a quem torce paulatinamente. Não possuem a ousadia e alegria de quem quer ver gol. Lhes falta a dedicação necessária a essa atividade, que exige esforço e dedicação. Gritar constantemente – até ficar rouco –, se descabelar, xingar o juiz, amedrontar a equipe adversária, calar a torcida alheia, bater o tambor como se fosse a pancada do próprio coração, carregar pesadas bandeiras, distribuir enfeites e faixas, são práticas comuns às torcidas comprometidas com o sucesso de seus times, o que não nos parece ser o que está acontecendo com a torcida brasileira que está pagando, e caro, para ver o jogos do Brasil. O que esta sabe é desqualificar, com palavras de baixo calão, a chefe de Estado, ao passo que ostentam seu poderio econômico traduzido em suas vestes, enfeites e nos dispendiosos gastos para ali estarem. Mas torcer mesmo que é importante?
A tradição das torcidas brasileiras é tão forte que já subverteu inclusive preconceitos em torcida. “Espírito de porco” foi o primeiro nome que recebeu a torcida do paulista Palmeiras. Assim batizada pela torcida do desmembrado também paulista Corinthians, os palmeirenses adotarem esse nome em virtude da força que possuía e possui sua torcida. Pó de Arroz é um nome tradicional da carioca torcida do Fluminense, isso pois, esta, após o preconceito em relação a um jogador negro que teve que se pintar com esse talco, levava e distribuía grandes quantidades desse pó para os estádios. Flamundo é o nome usado pela torcida do também carioca Flamengo, isso para designar que sua torcida está espalhada por todo mundo. Quem já foi ou viu os tradicionais e intensos Palmeiras VS Corinthians, Fla-Flu, Ba-Vi, Gre-Nal, Confiança VS Sergipe, sabe que essa torcida que ai está, nos jogos do Brasil, não representa a tradição das torcidas brasileiras. Nem parece que a seleção do Brasil está jogando 'em casa', nem que a torcida pode influenciar no resultado a ponto de ser chamada de décimo terceiro jogador. Este não é um problema de empresas como da Federação Internacional de Futebol (FIFA), que visa o lucro; mas caso os nossos representantes políticos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e afins, quisessem, poderiam incentivar e patrocinar a ida aos estádios das torcidas que fazem a real diferença.
Algo está fora do lugar, pois se não foram os brasileiros que criaram o futebol – o que segundo alguns críticos é criação dos ingleses – foram estes que o difundiram e ensinaram o mundo a jogar e admirar seu modo peculiar de gingar e driblar tal qual fazem com os seus tantos problemas sociais.
Mais um agravante – além da questão de que a tal torcida não está transmitindo aos jogadores a força e apoio de quem torce e joga em casa, respectivamente – é que com a globalização, o atual futebol, jogado pelas mais diversas seleções mundiais é cada vez mais comum entre seus aspectos (força, agilidade, esquema de tático, alto rendimento, bons goleiros, atuantes 'camisas 10'), o que torna as partidas ainda mais disputadas. Este ínterim conclama ainda mais a atuação da torcida brasileira dentro das arenas, pois as oitavas de final dessa Copa do mundo tem mostrado que não basta ser somente favorito ou ter tradição em futebol para ganhar uma partida, mas que é preciso também contar com a força quem vem das arquibancadas e 'geral' mais que das áreas vip's.
Deste modo, entendemos que a pouca ou nenhuma expressividade mostrada pela torcida do Brasil, esta que se restringe a continuar cantando o hino nacional após o cessar do acompanhamento, deveria ser transmutada na contínua efervescência durante todo os jogos, perdendo ou ganhando, a incentivar a seleção rumo a vitória. A relação com o cotidiano do Brasil é que quem possui uma vida abastada e tranquila financeiramente por causa do acúmulo e da desigualdade social, não tem muito pelo que lutar com toda força para influenciar nada mais que a permanência do seu status quo, no qual os pobres trabalham e pagam seus impostos para que os ricos continuem onde e como estão: é para isso que os ricos sabem torcer!
Por Fernando Gramoza


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