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Monumento à Lampião, doze anos de pesquisa

“Todos os homens por natureza desejam conhecer”. É inerente à espécie humana a curiosidade, que por vezes pode ser prejudicial à sociedade. Mas em certos momentos ela tem um valor inestimável ao conhecimento e à sociedade. No presente caso, o escritor José Bezerra Lima Irmão dedicou doze anos de sua vida à pesquisa sobre o Cangaço e sobre Lampião. Sua obra monumental de 736 páginas é um marco para as pesquisas no referido tema. Um dos maiores escritores de Sergipe, Antônio Francisco de Jesus (Saracura) falou sobre o livro: “Finalmente Lampião ganhou um livro à sua altura, que não tem adjetivos que causam asco.“

Acompanhem a entrevista com o escritor

Edivan Santos – Sabemos que o tema do Cangaço e Lampião é muito estudado e tem grandes produções escritas e televisionadas, então; O que diferencia seu livro das demais produções sobre Lampião?

José Bezerra - Existe muita coisa escrita sobre o cangaço no Nordeste e em especial sobre Lampião, mas o leitor precisa acautelar-se porque há muita lenda. Alguns autores tiveram acesso a informações valiosíssimas, mas não souberam o que fazer delas. Uns se limitam a contar fatos esparsos, narrados à medida que os assuntos vão sendo lembrados, ao acaso, baralhados, sem nenhum encadeamento temporal ou lógico. Outros cuidam apenas de fatos ocorridos em certa fase histórica, em determinado espaço geográfico, em determinadas circunstâncias. Quase sempre os fatos são narrados sem citar fontes, sem precisar datas, sem apontar lugares. É comum dizer-se que tal história foi contada por “pessoa de inteira confiança”, sem dizer quem. Há autores que contam os fatos assim: “Certa vez, no interior de um Estado nordestino, Lampião matou um homem que era dono de uma fazenda...”. Pergunta-se: quando foi o fato? Onde e como ele ocorreu? Quem foi a vítima? Qual a fonte da informação? 

Edivan Santos – Sua pesquisa durou mais de uma década e resultou em mais de 730 páginas, qual sua maior dificuldade para produção do livro?

José Bezerra – Durante onze anos, empenhei-me na elaboração deste livro, em meio às atividades de rotina. Busquei ordenar de acordo com a sequência lógica e temporal dos acontecimentos tudo quanto foi possível apurar sobre o guerrilheiro do Pajeú, raposa matreira que, ou por méritos próprios ou por incompetência dos governos, durante 17 anos percorreu as veredas poeirentas das caatingas do Nordeste, ludibriando caçadores de sete Estados. Adotei o método etnográfico de pesquisa de campo, valorizando a história oral, mas sem descuidar da pesquisa bibliográfica e da consulta aos jornais e revistas da época e aos autos de processos e documentos oficiais. As fontes primárias sobre Lampião estão desaparecendo. As pessoas que o conheceram já morreram quase todas. Os documentos escritos e os jornais da época do cangaço, em geral muito mal conservados, estão se deteriorando, alguns já inteiramente destruídos ou perdidos. Os funcionários das bibliotecas e arquivos públicos, em geral pessoas despreparadas, chegam a questionar a serventia de tanto “livro e jornal velho”. No cotejo dos relatos constantes nos livros consultados, deparei-me com inúmeras contradições e inverdades. Para tirar dúvidas, fiz muitas viagens – mais de trinta. Estive em quase todos os lugares referidos nos relatos do cangaço, percorrendo caminhos até hoje praticamente intransitáveis, subindo serras, atravessando riachos, dormindo em fazendas e até em aposentos onde estiveram os cangaceiros e os homens das volantes, entrevistando antigos moradores, parentes dos cangaceiros, parentes dos soldados, parentes das vítimas. A alguns desses lugares tive de voltar várias vezes, pois à medida que aclarava certos pontos surgiam novas dúvidas. Dediquei tempo considerável à pesquisa em arquivos públicos, cartórios, museus, arquivos paroquiais, bibliotecas e institutos históricos e geográficos. O desafio maior é a depuração dos fatos, passados tantos anos. Muitos jornalistas e escritores que entrevistaram soldados, coiteiros ou ex-cangaceiros foram ludibriados de forma clamorosa. Os soldados, visando à notoriedade e às promoções, só falavam de seus feitos heroicos; por sua vez, os coiteiros tinham que avaliar cada sílaba que pronunciassem, pois se sentiam acuados entre dois fogos; no caso dos ex-cangaceiros, cada um se dizia um anjinho, só revelava o que lhe convinha, e justificava-se dizendo que se tornara cangaceiro para vingar a morte do pai, para punir a desonra da irmã ou para reparar uma injustiça, mas confessar crimes, nem pensar – a não ser cangaceiros como Volta Seca e Ângelo Roque, que não só confessaram seus crimes, mas até os exageraram em seus relatos, por vaidade ou demência, chegando a dizer que fizeram coisas que sequer presenciaram. O tempo, que é o melhor remédio para curar cicatrizes, fez com que, hoje, seja possível analisar os fatos sem paixões. E este é o propósito do presente trabalho. Não pretendo ser o dono da verdade. Ao narrar os fatos, citarei as fontes. Evidentemente, para narrá-los terei de fazê-lo de acordo com a forma como os interpreto, sendo inevitável em certas passagens emitir juízos de valor, levando em conta as circunstâncias do tempo e do meio. Quando houver mais de uma versão, darei notícia de todas, assinalando aquela em que acredito. Este é o método que prometo seguir. Se alguma coisa que for dita incomodar ou atingir alguém é porque, por exigência da precisão histórica, não foi possível atenuar ou omitir a verdade. Mas não pretendo acusar nem defender ninguém, e muito menos julgar. Não sou bispo nem juiz. Relatarei os fatos da forma mais objetiva possível. Quem quiser que tire as suas conclusões.

Edivan Santos – Uma pesquisa e produção desse porte requer um cuidado e perspicácia muito grandes, qual foi sua formação acadêmica?

José Bezerra - Sou formado em Direito. Tenho pós-graduação em Direito Tributário. Sou membro do conselho de contribuintes do Estado da Bahia, órgão que julga processos relativos a Tributos no âmbito administrativo.

Edivan Santos – O que o levou passar grande parte de sua vida pesquisando sobre o Cangaço?

José Bezerra – O que me fez apaixonar-me por esse tema foi meu interesse pelas coisas do Nordeste. A história do Nordeste resume-se basicamente a três personagens: Lampião, Padre Cícero e Antônio Conselheiro. Lampião não foi nem bandido, nem herói. Foi um cangaceiro. Não é justo pintar Lampião como um “monstro”. Mas também não adianta querer retratá-lo como “bonzinho”. Nada de extremos. Afinal, todo maniqueísmo é perigoso. Virgulino Ferreira não foi nem herói nem bandido, foi simplesmente um sertanejo à moda do seu tempo, um tempo brabo em que o sujeito para ser respeitado tinha de mostrar que era cabra macho, e para isso era preciso honrar cada letra do que dizia, fosse para o bem, fosse para o mal. O Nordeste até quase o meado do século XX era uma terra de cangaceiros. Ser cangaceiro era moda. Os políticos tiravam fotos vestidos de cangaceiros. Alguns juízes dispunham de cangaceiros para fazer cumprir suas sentenças. O vigário de Mata Grande, em Alagoas, viajava para sua fazenda metido numa roupa de mescla azul com cartucheiras, rifle e vistoso chapéu de couro de abas quebradas para cima. Até os soldados se vestiam como cangaceiros. Alguns autores incorrem no erro de analisar um momento histórico com base em conceitos e ideias do presente. Outros, por desconhecerem a realidade dos sertões brabos daquela quadra, alternam a descrição dos fatos com a emissão de juízos de valor inadequados. Não se pode interpretar o passado com os olhos do presente. Para se saber quem foi Lampião, é preciso situá-lo no contexto social de seu tempo e no espaço geográfico em que ele viveu. Só assim, situando-o nas dimensões dos espaços físico e temporal, é possível compreender e julgar esse personagem que terminou sendo o símbolo de uma época no sertão nordestino. O maior problema para o pesquisador do cangaço são as versões dos fatos. Naquele tempo, não havia jornalismo investigativo. E não se ouvia “o outro lado”. As notícias chegavam aos jornais por meio de telegramas enviados por correspondentes, pela polícia ou pelos prefeitos (intendentes). As autoridades da época – como as de hoje –, por meio de suas “assessorias de imprensa”, só repassavam às redações dos jornais o que interessava e com a versão que lhes convinha. E os jornalistas da época não sabiam distinguir o que era notícia do que era propaganda. Muita coisa não passava de boatos ou notícias “plantadas” pelos chefes de volantes, que só contavam as vantagens, de modo que muita gente foi promovida por atos de bravura que nunca ocorreram. Se o jornal era do partido do governo, encobria os fracassos das forças policiais e exagerava as providências reais ou fictícias tomadas na repressão ao cangaço. Em contrapartida, se o jornal era da oposição, o redator acentuava a incompetência das autoridades, pintando de negro a situação do povo do sertão. Além disso, muitos jornalistas fantasiavam as descrições, exagerando as coisas a fim de dar mais sensacionalismo aos fatos. Muitos crimes foram atribuídos a Lampião, quando ele estava noutra parte, até em outro Estado. Por essas razões, a pesquisa dos jornais da época só é importante para determinação das datas, devendo-se ter cuidado com o conteúdo das notícias. Certos estudiosos do cangaço tentaram definir Lampião como uma espécie de Robin Wood, um nobre salteador que procurasse fazer justiça tirando dos ricos para distribuir com os pobres. E de fato Lampião dava muitas esmolas e algumas vezes distribuía o resultado dos saques com o povo, mas isso era feito sem um propósito definido. Também é certo que muitos coiteiros pobres viviam às expensas de Lampião, fazendo compras para ele e informando-o sobre os deslocamentos das tropas, pois Lampião não fazia questão de preço, mas se ele pagava bem a fornecedores e informantes fazia-o motivado pela sua preocupação fundamental, que era a sobrevivência sua e dos que dependiam dele. Noutra vertente, alguns historiadores e cientistas sociais, vislumbrando manifestações de lutas de classes no universo sertanejo, têm buscado estudar a vida de Lampião não como a de um bandido, mas em função da realidade social em que ele viveu, num ambiente de atraso e obscurantismo absolutos. Têm-no em conta de um líder popular que levantou a bandeira dos sertanejos oprimidos ante a ignominiosa exploração dos coronéis. Apontam-se como provas inequívocas da luta de classes no sertão os movimentos de massas de Canudos, Caldeirão e Pau-de-Colher, onde pobres criaturas que apenas lutavam para se defender foram barbaramente massacradas por milícias açuladas pelas classes dominantes. O sertanejo que pegava em armas e formava um bando não passaria de uma vítima da monstruosa organização social que o oprimia. De fato, Lampião ousou desafiar o Poder – e esse foi seu maior erro, ou seu maior mérito, a depender do critério pelo qual seja avaliado. Acusam-no de ter sido aliado dos coronéis. Na verdade, ele humilhava os coronéis. Os “acordos” com os coronéis eram unilaterais, pois as regras eram decretadas por Lampião, que as aditava ou revogava quando e como queria, e o que se via era a total submissão dos fazendeiros ricos, que eram obrigados a atender aos seus famosos “bilhetinhos”, fazendo exigências que tinham de ser cumpridas à risca, sob pena de ver suas propriedades arderem em chamas. Lampião viveu no mundo dos coronéis, jagunços, vaqueiros, tropeiros, curandeiros, beatos milagreiros, fanáticos, cantadores, repentistas, secas e epidemias; no mundo das questões políticas, das questões pela posse das terras e das “questões de honra”, num ambiente sem lei e sem autoridade – o sertão do bacamarte. Podia haver escassez de ferramentas para o cultivo da terra inóspita, mas em compensação sobravam armas, pois os velhos arcabuzes, trabucos, mosquetões, reiunas, bacamartes, clavinotes, carabinas e garruchas usados pelos colonizadores e bandeirantes vinham passando de mão em mão, uma geração após outra. No sertão, todo homem que pudesse tinha uma arma. Quem não podia comprar uma arma de fogo comprava uma faca “peixeira”. Era comum o sujeito ir para a roça com a enxada num ombro e a espingarda no outro. Hoje, algum desavisado, que já nasceu na época das estradas asfaltadas, das comunicações instantâneas, da internet, poderia perguntar, simploriamente: Por que a polícia não prendia Lampião? Por que as pessoas não o processavam? E por que Lampião não arranjava um emprego e não procurava viver decentemente? Sem dúvida, é impossível falar sobre Lampião e compreender as razões do cangaço sem fazer uma breve retrospectiva, de modo a situá-lo nas circunstâncias de sua época e no ambiente daquele sertão brabo dos santos e dos cangaceiros, homens que, nas palavras de José Lins do Rego, matavam e rezavam com a mesma crueza e a mesma humanidade. Naqueles tempos, no Nordeste, cangaceiro era uma espécie de profissão. O cangaço era um meio de vida. Uma série de fatores históricos, políticos, sociais, econômicos e mesológicos contribuía para isso. O cangaceirismo tem o aspecto de reivindicação, de protesto contra as desigualdades, de vingança diante das injustiças, ou de revide ante as extremas provocações. As culturas temporárias só davam emprego em épocas limitadas do ano, e assim mesmo incertas. Muitos homens se tornavam cangaceiros por falta de outra opção. O sistema então vigente, pelas arbitrariedades, injustiças e desigualdades econômicas e sociais que propiciava, foi, por assim dizer, o ninho das serpentes – ali estavam todos os ingredientes que dariam viço e peçonha a víboras como Meia-Noite, Sabino Gomes, Corisco, Volta Seca, Juriti, Zé Sereno e outros viperídeos, capitaneados pelo cascavel-de-quatro-ventas, Virgulino Ferreira, o Lampião, a cobra voadora que faria o sertão tremer. 

Edivan Santos – É certo que alguns leitores têm certa preguiça para leitura, se alguém perguntasse o que o levaria a ler uma obra tão extensa, o que responderia?

José Bezerra - Todos Nós temos obrigação de conhecer o que diz respeito à nossa cultura. O cangaço é um assunto sério. Mais que um simples fenômeno caracterizado pela atuação de homens armados que saqueavam fazendas, vilas e cidades do Nordeste, o cangaço representa na verdade uma manifestação coletiva típica de luta de classes gerada nas caatingas, de forma espontânea, do povo analfabeto e pobre contra o domínio absoluto do coronel igualmente analfabeto porém rico e prepotente, embora tal manifestação não tivesse um objetivo definido, já que a matutada rude não tinha consciência social e não seguia nenhuma orientação ideológica, mas apenas o sentimento de revolta. 

Porém, embora na prática o cangaço não tenha passado simplesmente de uma reação violenta à miséria e à falta de justiça, sem nenhuma condução racional que visasse à solução dos reais problemas do homem do sertão, é inegável a importância do seu estudo como fenômeno histórico-social. Os cangaceiros, sem saber, fizeram uma revolução – um movimento espontâneo dos oprimidos, dos injustiçados, dos marginalizados. Lampião, cujo carisma fez com que ele passasse a simbolizar o próprio fenômeno do cangaço, era um homem sem instrução. Ele nunca ouviu falar em “justiça social”, não tinha a menor noção dos ideais de igualdade apregoados naqueles tempos por filósofos e ativistas no continente europeu. Mas isso não diminui a sua importância histórica. 

Embora nada justifique os desatinos cometidos, há que se reconhecer que o cangaço constituiu um movimento social posto em prática por sertanejos que se recusaram a seguir a única “opção” que havia – o trabalho semiescravo nos latifúndios dos coronéis.  No imaginário popular, pode-se dizer que a tendência do povo é converter Lampião num símbolo da resistência dos humildes à opressão das elites, pois o povo precisa de seu Robin Hood, e o mito que se criou enquanto ele era vivo só tem feito crescer após a sua morte. Para o povo do Nordeste, Lampião é o emblema radical de um tempo em que o Estado não conseguia andar montado no cangote do povo, a lhe sugar até o sangue. 

Não se pode escrever sobre Virgulino Ferreira começando, logo no primeiro capítulo, a contar suas peripécias, como se fosse uma obra de ficção destinada a simples entretenimento de leitores ávidos por ação e aventura. Virgulino é um personagem histórico. Sua figura deve ser tratada com respeito. Não foi nem vilão nem herói. Filho de uma família honrada, ele teve uma infância absolutamente normal, porém, por uma série de fatores que serão aqui analisados, terminou se lançando numa empreitada temerária da qual não tinha como sair vivo. Cometeu muitos desatinos. Poderá haver quem questione qual o interesse que existe em estudar fatos tão “negativos”. Porém, se não são mostrados os podres da sociedade, as autoridades não são cobradas. Sem resvalar para a condenação cega, mas também sem pender para a apologia do crime, cabe ao estudioso do cangaço identificar as suas causas e inteirar-se dos fatos em toda a sua extensão, para que – quem sabe, já que a História é a mestra da vida – se possa afinal tirar dos erros do passado algum ensinamento que venha a evitar que outros Lampiões se materializem, agora ou no futuro. 

Lampião, o Rei do Cangaço, como o próprio epíteto denota, foi o maior de todos os cangaceiros do Nordeste brasileiro, levando-se em conta seu carisma, seus feitos guerreiros, a duração e a amplitude territorial do seu reinado. São incontáveis os trabalhos escritos sobre ele – ensaios biográficos, estudos históricos e sociológicos, romances, artigos, reportagens, depoimentos, além de vasta literatura de cordel. Lampião inspirou poemas e músicas. Suas proezas têm sido objeto de peças teatrais, novelas, cancioneiros, filmes, documentários e seriados de televisão. Ainda vivo, era retratado como herói. O seu nome atravessou as fronteiras do Brasil. Entre 1922 e 1938, era rara a semana em que alguma notícia sobre ele não saísse nos jornais. Já se afirmou que, depois de Pelé, Lampião foi o brasileiro que mais ocupou espaço nos noticiários dos nossos jornais, e em número de biografias não há outro que dele chegue perto. 

Lampião – alto, seco, de rosto comprido, moreno, cara sisuda – despertava nas pessoas um misto de pavor, curiosidade, admiração e respeito. Mesmo os que fugiam para o mato ou se trancavam nas casas com medo dele sempre procuravam vê-lo de algum modo, ainda que de longe, entre as folhagens, ou espiando pelas frestas das portas e janelas. Os cabras de Lampião pareciam cercados de uma aura de romantismo, com seus trajes bonitos, cheios de enfeites coloridos e reluzentes, e exerciam um fascínio enorme sobre os jovens esmolambados das caatingas. Sua valentia e seus feitos, do mesmo modo que causavam medo, também tinham algo de sedutor, uma espécie de encanto, de glamour. Maria Bonita, por exemplo, antes de conhecer Lampião, ouvia as suas histórias e suspirava por ele. Ao conhecê-lo, não pensou duas vezes para decidir, quando o cangaceiro famoso lhe perguntou se queria acompanhá-lo em sua louca aventura de amor e sangue. Quer se queira, quer não, o cangaço é um bem imaterial culturalmente associado ao imaginário nordestino. Três coisas simbolizam o Nordeste: o mandacaru, o forró e o chapéu de cangaceiro. 

Lampião era extremamente religioso, ou melhor, supersticioso. Carregava patuás com rezas e objetos simbólicos embrulhados em saquinhos de pano. Toda manhã, ao acordar, rezava o Ofício de Nossa Senhora. Levava sempre consigo cópias manuscritas de orações fortes, para fechar o corpo, como a Oração da Pedra Cristalina, a Oração do Salvador do Mundo, a Oração das Treze Palavras Ditas e Retornadas, a Oração do Justo Juiz, a Oração da Beata Catarina. Nos momentos de grande aflição, recitava o rosário apressado de Nossa Senhora da Conceição. Sempre que podia, assistia a missas e novenas. Jejuava na Semana Santa. Era devoto do Padre Cícero – deixava de assaltar uma casa se nela houvesse uma imagem do Padre Cícero. Houve casos em que ele poupou a vida de pessoas que na hora de morrer imploraram em nome do Santo do Juazeiro. 

Lampião foi um produto do seu meio. Como disse um padre cearense apaixonado pelas coisas do sertão, o cangaceirismo foi a única fórmula de heroísmo que o sertanejo nordestino conheceu porque não lhe ensinaram outra, numa terra sem lei e sem justiça: O sertão é cangaceiro porque jamais conheceu a ternura de uma carícia, de um afeto, de uma compreensão. Não pode ser flor quem sempre foi espinho. Até a vida no sertão é cangaceira! Até a natureza é cangaceira! Até o destino é cangaceiro! Até que até Deus é cangaceiro, também! Virgulino na juventude foi um garoto nordestino típico, ajudando o pai nas lides da roça e no manejo do gado. Por vingança, tornou-se cangaceiro, o que era comum no seu tempo. 

Comia pouco. Só gostava de bebidas “finas” – conhaque, vermute e genebra – e não bebia muito, nunca se embriagava. Fazia os próprios cigarros, com fumo picado e papel de seda. Gostava de jogar baralho, quase sempre apostado, mas não era viciado, jogava só para matar o tempo. Quando perdia, pagava. Gostava de ler, ou mandava alguém ler para ele, de preferência jornais e revistas que falassem a seu respeito. 

Nos folguedos, sempre estava com Maria Bonita, a Santinha, como ele a chamava. Gostava de dançar xaxado, dança cujo nome é onomatopeia do xá-xá-xá das alpercatas dos cabras arrastadas no chão, um atrás do outro, em círculo, sem volteio, avançando o pé direito em três e quatro movimentos laterais e puxando o esquerdo, num sapateado rápido e deslizado, todos marcando a queda da dominante batendo com a mão no coice do fuzil. Outra coreografia dessa dança era por pares: um cabra ia xaxando em direção a outro até tocarem as alpercatas, e então jogavam os rifles para cima, aparando-os de volta, batendo com a mão no lado da culatra. O xaxado se dança só, não precisa de mulher. Lampião dançava batendo o coice do rifle no chão, marcando o ritmo. Quando suas alpercatas de sola ciscavam no ritmo do xaxado, levantando poeira, toda a terra do sertão se sacudia. 

O relato desses fatos visa demonstrar que a violência era crônica nos sertões do Nordeste. Vigorava ali uma espécie de culto à coragem. Valentia era prova de masculinidade. Naquele tempo, a “vida da espingarda” não era apenas um procedimento legítimo, de acordo com as circunstâncias, mas uma ocupação francamente preferencial, no combate ao índio e ao animal bravio e na defesa contra bandidos, de modo que não é de estranhar que o cangaço tenha sido uma forma de vida criminal orgulhosa, ostensiva, escancarada, sendo a legenda dos capitães de cangaço mais famosos esculpida pelos versos dos cantadores de feira, emboladores e cegos rabequeiros, e também pelos poetas da literatura de cordel, os vates de alpercata. 

Lampião é definido simploriamente como um fora da lei. Mas, afinal, onde estava a lei? 
O povo do sertão não conhecia a Justiça – só conhecia a Polícia. No sertão não havia autoridade, e quando a autoridade se manifestava era por meio de ações criminosas sob o manto de escandalosa legalidade. 

Nesse mundo de despotismos incríveis, Lampião foi o paroxismo, a demasia, a culminância de tudo. Não há ficção que lhe chegue às alpercatas. Um super-homem na resistência, uma inteligência calculista e fulgurante, uma coragem ímpar, um carisma eficaz no trato social, uma diplomacia atapetada de seduções para com possíveis aliados, uma vontade de ferro alongada em agulha de bússola exclusiva na orientação moral de toda uma vida. 

Após a Proclamação da República, a nova Constituição promoveu uma descentralização de poderes e atribuições antes concentrados na capital do Império. Essa descentralização fez com que as elites políticas, em regra aglutinadas nas capitais dos Estados, passassem a depender do apoio dos homens poderosos dos sertões, os “coronéis”, como eram chamados os homens ricos – usineiros, fazendeiros, grandes comerciantes –, que eram geralmente os chefes políticos locais. 

A partir do presidente Campos Sales, estabeleceu-se como verdadeira política de estado uma situação surreal: os jagunços davam sustentação ao coronel, os coronéis davam apoio ao oligarca estadual, e os oligarcas estaduais davam respaldo ao presidente da República. Em decorrência disso, os mandachuvas sertanejos, cientes de sua força, já que os governantes precisavam deles, faziam o que queriam em suas áreas de influência. A polícia fingia-se de morta. 

A situação azedava quando os interesses de um coronel afetavam os interesses de outro coronel. O choque era inevitável, e formavam-se facções, cada uma reunindo os parentes, amigos, agregados e moradores ligados ao respectivo líder. Nesses casos, a polícia ficava do lado daquele que se afinasse com o partido que estivesse no poder. 

Diferentemente de hoje, quando os delegados são profissionais de carreira, concursados, bacharéis em Direito, naquele tempo os delegados, muitos deles analfabetos, sequer eram funcionários do governo, eram simplesmente homens escolhidos pelo chefe político local, sem nenhuma autonomia, podendo ser demitidos a qualquer hora, bastando contrariar algum interesse do chefe – o coronel – ou de seus aliados. Os próprios juízes não passavam de marionetes controladas pelos coronéis. Juízes mais destemidos viam-se muitas vezes na contingência de organizar bandos de cangaceiros para fazer cumprir as suas decisões! 

O intendente do município (prefeito) era o próprio coronel ou quem ele indicasse, e exercia sua função por anos a fio, enquanto vivesse ou até que houvesse mudança de governo ou das circunstâncias. O termo “coronelismo” designa o modo como os homens de grandes posses exerciam o poder em suas áreas de influência. Nas pequenas cidades e vilas do sertão, o coronel era a grande autoridade, controlando a posse das terras, o comércio, o trabalho, as eleições, os cargos públicos e até a Igreja. Com o seu comportamento paternalista, ele ditava as regras, ele mesmo julgava, ele mesmo executava. Todos se rendiam à sua autoridade – o padre, o juiz, o delegado. 

Se, por exemplo, um criminoso estivesse fugindo da polícia e conseguisse transpor a cancela da propriedade de um coronel, automaticamente cessava a perseguição, pois o coronel se sentiria desmoralizado se a polícia entrasse em suas terras sem autorização. E se o criminoso fosse aceito pelo coronel como um de seus “rapazes” deixava de ser criminoso, pois agora estava a serviço da ordem. 

Quase sempre os coronéis eram grandes latifundiários. Ávidos por terras, apoderavam-se à força de extensas áreas que não cultivavam nem permitiam que outros as cultivassem. Porém, membros de outras classes sociais, tais como comerciantes, advogados, médicos, burocratas, professores, industriais e até mesmo padres eram chamados de “coronel”. Por meio da política de favores ou pela intimidação, os coronéis conseguiam eleger-se e eleger seus candidatos, perpetuando-se no poder, lançando mão de processos muitas vezes violentos e outros tantos desonestos – roubo de urnas, falsificação de atas eleitorais... O Estado era omisso. As despesas das eleições eram custeadas quase integralmente pelos chefes políticos. As eleições eram uma farsa, feitas apenas para dar a impressão de que quem escolhia os governantes era o povo. 

Para se impor, os coronéis contavam com seus jagunços ou cabras, os chamados “homens de confiança”, geralmente criminosos, valentões ou desordeiros que se punham sob a sua proteção e que nas horas vagas, com ou sem a ordem ou consentimento dos patrões, faziam e aconteciam impunemente. 

O poder de um coronel era medido pelo número de seus aliados e pela quantidade de jagunços à sua disposição. Secularmente, os grandes proprietários fizeram uso de sua “cabroeira” para manter a posse da terra e o domínio sobre índios, escravos, moradores e agregados. Como as terras no sertão não eram cercadas, as divisas das fazendas eram incertas. O que marcava a divisa era o poder do seu proprietário. Ele dizia: “Isso aqui é meu, aqui ninguém entra, aqui ninguém passa”, e pronto. 

Enfim, o termo “coronel” designava todo cidadão que dominasse política ou economicamente determinada região, exercendo seu poder patriarcal sobre considerável número de pessoas, e o reconhecimento de sua autoridade dependia do número de pessoas que trabalhavam para ele, às quais assegurava proteção em troca de solidariedade na hora de votar ou em qualquer situação em que se visse ameaçado. 

O coronelismo, como sistema de domínio político exercido pelos homens poderosos à margem da lei, entrou em decadência a partir de 1930. Porém pelo menos até a década de 60 muitos coronéis continuaram mantendo suas próprias forças paramilitares – os seus capangas, em geral elementos “corridos da justiça”. 

Até mesmo os cangaceiros, coiteiros e volantes não passavam de figuras decorativas, em comparação à grandeza e ao poder dos coronéis, e o próprio Lampião tinha consciência dessa invencível força, sabia que vivia preso a essa tenebrosa rede de dominação e influência, pois era impossível viver naquele mundo sem a proteção e amizade de pelo menos alguns dos poderosos donos dos sertões.

Por Edivan Santos
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