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A controversa existência humana na terra

Desta vez, minimamente, duas recentes notícias somam-se a tantas outras para engendrar a presente reflexão. Sejam elas a expressiva quantidade de medicamentos (inclusive alguns que faltam em algumas unidades de saúde) e outros materiais que, sob a responsabilidade da Fundação Hospitalar de Saúde (doravante denominada FHS), estavam com prazo de validade extrapolado, os quais não sabemos quando e onde, deverão ser descartados e/ou incinerados. 

A outra manchete foi a sobre o lixo acumulado nas ruas e demais locais públicos da cidade do Rio de Janeiro, este que, gerado pela greve dos garis – os quais, tal como está ocorrendo desde 31 de março e 02 de abril do corrente ano nas cidades do ABC paulista (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul) e em São Luís/MA, respectivamente, reivindicam, como pouco se viu, melhores salários e condições de trabalhos – prejudicou a vida dos cidadãos cariocas, inclusive dos que o geraram.

Ambos os casos imprimem – ou deveriam – algumas sérias indagações ao moderno modo de vida humano: para onde vai tanto lixo? Todo ele é reciclado? É realmente necessário gerá-lo? Não esqueça o leitor que, no caso de Aracaju, o problema é de ingerência da FHS e no caso carioca, o lixo também fora gerado no sambódromo por, dentre outros atos, descarte de partes de fantasias e carros alegóricos de algumas escolas de samba.

Feito este introito, segue, de fato, a reflexão.
Devido ao grau de consciência – ou melhor, falta desta – e de degradação ambiental que vive a humanidade, vale pensar se a existência da natureza, com sua diversidade,'beleza', fecundidade e capacidade de renovação não seria inversamente proporcional à existência humana na Terra. O existir humano, se se quer duradouro, precisa repensar o não tão atual modo de vida moderno, pois este, a exemplo do cada vez maior e mais complexo consumo dos recursos naturais, não parece proporcional a essa existência.
Na senda para pensar tal contradição, utilizaremos parte do pensamento do filosófico do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ao menos em sua obra Discurso sobre as Ciências e as Artes (1749). No que concerne esta obra, Rousseau, dentre outras questões, nos faz pensar sobre se a moral – e a sinceridade – progrediu tal qual as ciências e as artes. Em paralelo, propomos pensar sobre o modo de vida de excessiva preocupação com aparência, ostentação e consumo, os quais tão em voga não poderão, certamente, ser sustentados durante muito tempo sem que a vida, em sua plenitude, seja afetada. Qual seria, para além das aparências, o real objetivo desse modo de vida quase nunca saciado?

Com algum comprometimento social, duas seriam as possíveis soluções e, também, dois são os respectivos agentes da possível mudança: um menor, reflexivo e comprometido consumo por parte da sociedade em geral, bem como mais investimentos, conscientização e seriedade em disponibilizar recursos para coleta seletiva, estações de tratamento e correto descarte dos mais variados tipos de lixo e materiais – quando alguns podem ser transmutados em combustíveis como gazes e afins – e em instituições de beneficiamento de lixo como cooperativas de reciclagem e afins, por parte dos representantes políticos.

Quando alertas e bastante sensíveis as estes e outros dos nossos tantos problemas sociais, as intervenções intelectuais de Rousseau contribuem para que possamos pensar as atuais posturas – as quais, nesse caso, precisam tão logo serem outras – tanto da sociedade quanto dos governantes em vias de aclarar seus reais objetivos e interesses em relação ao compromisso com a vida dessa e das gerações futuras, observando os mananciais, a fauna, a flora e as demais condições naturais de vida, inclusive a própria humanidade como fim último.

Tal como nos faz pensar o filósofo genebrino sobre a vida em sociedade, qual deve ser a real postura quando muitos se preocupam mais com o que vão pensar deles a de fato se comprometerem com uma ação ou postura em prol da vida. Assim, ao que parece, para modernidade mais vale parecer ser [algo] que ser de fato!

Por Fernando Gramoza
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