Para além do futebol: Esporte e Envolvimento Social
O futebol é conhecido e admirado por grande parte dos brasileiros. Quem não conhece a fundo ao menos admira e dispensa algum tempo de sua vida em frente a aparelhos de televisão para assistir a uma partida de futebol. Esse esporte, na imensa maioria das vezes, reserva muitas surpresas, algumas gratas e outras nem um pouco. Como base para pensar, ao menos, uma das tantas gratas surpresas, refletiremos sobre a figura do assim chamado “Doutor Sócrates”. Já para pensar as nada gratas, tomemos o também jogador Paulo César Tinga, mais conhecido por este último nome.
Falecido em 2011, o jogador Sócrates deixou um legado de muita reflexão e envolvimento social, tal como o filósofo grego, mais conhecido detentor desse nome. Tendo que se dividir entre um dos cursos de maior status social – a medicina – em uma das maiores universidade da América Latina – a USP – e o futebol, o “Doutor Sócrates” atuava ainda de modo bastante contundente na política de seu país. Presente nas “Diretas Já”, este cidadão deixa o exemplo de que jogador de futebol pode sim atuar nas atividades intelectuais e políticas de seu país, caso queira, pois as capacidades intelectivas são inerentes a todos os seres humanos, compreendendo, deste modo, também os jogadores de futebol. O “Doutor” era ainda bem sensível para com os que mais precisavam. Segundo depoimentos, disseminou entre os colegas a doação de parte dos salários para os funcionários mais necessitados do time.
Sobre o Tinga, iniciamos lembrando o conhecido caso “Pó de Arroz”. Segundo Mário Filho, em sua obra O negro no futebol brasileiro, na década de 1910, o jogador negro Carlos Alberto saiu do América para atuar no Fluminense. Como o time era bastante racista, o atleta decidiu passar pó-de-arroz no rosto. Durante a partida, o talco saiu e sua negritude foi notada, então a torcida adversária debochou gritando: "Pó de arroz! Pó de arroz!" Entendemos que esse preâmbulo já denota que o Tinga é aqui lembrado pelo caso de preconceito racial que o mesmo sofreu no Peru, no torneio Taça Libertadores da América. Quando entrou em campo, e a cada vez que o jogador negro tocava na bola, a torcida do time adversário emitia sons análogos aos de um macaco. Ao final da partida, o jogador, emocionado, falou que trocaria todos os títulos que já conquistou por uma igualdade não só racial, mas de toda a humanidade independente de suas opções ou aparência. Após o fato, o jogador recebeu inúmeros votos de apoio e o time será de algum modo punido pelo comportamento extremamente reprovável de sua torcida.
Que fique, de todos os casos que o futebol pode oferecer – comprometimento social, união nacional, inteligência, arte, preconceito –, a reflexão sobre como todos os casos sempre têm algo a nos legar, seja de modo positivo e emocionante, como é o do Sócrates ou, o nada salutar, do Tinga. Eis o futebol, prática mundial que encanta a muitos com suas adversidades, ironias, bons e nada positivos exemplos. Apreciável e importante momento para pensar e atuar em nossos tantos problemas sociais, tal como o preconceito étnico-racial.
Por Fernando Gramoza.

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