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Moema Franca: De Estância para as ruas de “Bem aqui, em lugar nenhum”

Sergipe possui grandes escritores, e na nova geração Moema Franca, é um dos ótimos exemplos. Nascida em Estância (SE) e radicada em Salvador (BA), a jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e também Doutoranda em Literatura na Sorbonne Nouvelle, universidade francesa, já coleciona prêmios. Em 2001, recebeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, pelo conto “Perder o trem, variação de partir”. 

No fim do ano passado, a sergipana lançou em Aracaju “Bem aqui, em lugar nenhum”, seu primeiro livro que reúne 12 contos independentes, editado pela editora 7Letras, cujo traço em comum é o tema do deslocamento. Apesar de recente, o livro já foi premiado com uma menção honrosa do Prêmio Sesc de Literatura 2011-2012. 

Confira a entrevista com a jovem escritora

JS- Como a literatura entrou em sua vida? 
Sempre gostei de literatura e planejo há muito tempo escrever, mas o impulso de parar para me organizar em torno desse plano surgiu a partir do momento em que fui selecionada para a Bolsa de Criação Literária da Funarte, em 2010. Isso me obrigou a estabelecer um prazo e um limite para a criação de um livro. 

JS- O que gostava de ler quando criança? 
Sempre pensou em ser escritora? Ainda me lembro da sensação de decidir, sozinha, sem a interferência de ninguém, ler o meu primeiro livro, escolhido na estante de casa, e do prazer que isso me proporcionou. Antes desse primeiro livro, gostava muito de ler gibis, e depois comecei a ler muitos livros de mistério, como os da coleção vaga-lume. Sempre pensei em ser escritora e, ao mesmo tempo, nunca pensei nisso, porque esta não aparece como uma opção financeiramente viável em termos de profissão. Era preciso traçar planos alternativos de sobrevivência para poder ser escritora. Mas sempre soube que era esse o meu ofício, o trabalho ao qual gostaria de me dedicar. 

JS- Todo autor tem um estilo. O que você relata nos contos? 
O tema dos contos gira em torno da vida nas cidades e da época em que vivemos. São histórias muito urbanas e contemporâneas. As histórias apresentam personagens que, embora inseridos no cotidiano de uma vida comum, experimentam um desconforto, um olhar "de fora", deslocado, exilado ou auto-exilado, às vezes excluído. Ao deslocarem-se entre cidades diferentes - ou entre memórias de espaços diferentes -, eles expressam a experiência de estar no mundo, quando este se apresenta muitas vezes fragmentado e impossível. Trata-se de sujeitos que problematizam a questão do pertencimento e da diferença num mundo ao mesmo tempo múltiplo (em termos de experiências pessoais e possibilidades subjetivas) e homogêneo (por conta, por exemplo, das demandas midiáticas e da lógica de consumo). 

JS- Quais autores têm como referência? 
São muitos os autores que leio e releio, mas, em relação a contos, especialmente, posso citar Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, as duas primeiras pela forma e o último também pelo conteúdo e pela temática contemporânea da obra. 

JS- ‘Bem aqui, em lugar nenhum’ é seu primeiro livro. Que mensagem você quer passar? 
O livro é um convite a um olhar particular sobre a realidade cotidiana, um estado de coisas, de crenças, de disposições e angústias do momento atual, com que qualquer pessoa pode se identificar. As histórias falam de cidades e dos sujeitos que as habitam; de lugares que são constituídos de ruas, bares, apartamentos, monumentos, mas também de música, televisão e publicidade. Assim, o "não-lugar" ficcional do título do livro pode também ser entendido como "todos os lugares", como um "lugar qualquer", uma metonímia do mundo, ou seja, um cenário contemporâneo possível - que poderia muito bem ser qualquer cidade.

JS- Seu livro é uma obra de ficção. Este gênero sempre te atraiu? 
Sim, sempre gostei de ficção e, principalmente, de ficção realista, que é, no meu entender, uma maneira de experimentar “ser” outro, ver a vida do ponto de vista do outro. 

JS- De onde veio a inspiração para criar a história? 
A inspiração pode vir de vários lugares: uma frase, uma imagem, um sonho, uma história que alguém contou. A partir daí vem o trabalho de construção e elaboração da história, que é uma espécie de trabalho de montagem, uma vez que os elementos da narrativa não podem ser gratuitos; precisam existir de forma a potencializar os sentidos da história. 

JS- O que te motivou a criar personagens, quem tem a forte característica da solidão? 
A solidão é inerente ao ser humano. Em última instância, estamos todos sozinhos, tentado estabelecer conexões, mas a comunicação é sempre cheia de ruídos. Então esse é um tema que se impõe naturalmente a partir da observação da vida cotidiana nas cidades, tão marcada pela casualidade de encontros e, sobretudo, desencontros. Cidade é parede e janela, transparência e opacidade, e por isso é um cenário tão rico e interessante do ponto de vista da ficção. 

JS- ‘Bem aqui, em lugar nenhum’, recebeu uma menção honrosa do Prêmio SESC de Literatura 2011-2012, na categoria conto. Como foi receber tamanho reconhecimento?
Foi uma alegria receber uma menção honrosa por um primeiro livro. Acho que a produção literária brasileira atual, ao contrário do que se possa supor, é muito prolífica, e ver que o livro se sobressaiu em meio a tantos outros é muito estimulante.

JS- Há outros projetos em andamento? 
Sim, as ideias para um próximo livro já começam a aparecer, mas ainda não pretendo entrar em detalhes, porque seria prematuro. A verdade é que o trabalho do escritor é permanente, não acontece somente no momento da escrita, que é apenas o momento mais visível do trabalho. 

O livro custa 29 reais e pode ser adquirido na livraria do shopping localizado no bairro Jardins, em Aracaju.
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