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Da analogia entre os navios negreiros e os transportes públicos

Faz um tempo que li – na publicação de 10 a 16 de outubro de 2013, Ano 2, Edição 142, de um jornal aqui da capital sergipana – um texto intitulado “Todo Circular tem um pouco de navio negreiro”. Penso que, pelo título, a equipe daquele editorial fez referência à música “Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro”, do grupo O Rappa. O texto citado fora constituído sob uma relação – já também dedutível de seu nome – entre os ônibus coletivos, nossos de cada dia, e os navios que transportaram a maioria de nossos antepassados, com ênfase no sofrimento e condição insalubre causada por estes transportes. Aqui propomos refletir – um pouco mais sobre os transportados que acerca dos donos dos transportes, o que faremos em outro momento – e observar o que essa relação, entre os tipos de transportes, pode nos legar.

Não entrevistamos ninguém que tenha sido transportado da África para o Brasil na época da Abolição formal da Escravatura. No entanto, da realidade dos ônibus de Aracaju estamos bem e cotidianamente inteirados. Será que alguma lembrança, daquela época, habita o “imaginário coletivo” de nossos políticos em vias de nos fazer sofrer, tal como nossos antepassados, para que não tenhamos força de nos rebelar e nos organizar como faziam nossos ancestrais nos quilombos? Se essa hipótese estiver certa, dizemos que os políticos estão conseguindo, pois é bastante difícil pensar em alguma coisa após chegar em casa, depois de uma longa jornada de trabalho, intercalada por duas sessões de tortura lícitas de ida e volta para casa nos ônibus coletivos.

Ao pensar no respeito mútuo entre os iguais, os navios negreiros eram bem menos disputados e desleais, pois neles eram respeitados os mais velhos, gestantes, crianças e demais debilitados. Já nos ônibus, vale a analogia à darwiniana Seleção Natural: só os mais fortes e ágeis sobrevivem ilesos, pois os demais são pisoteados, empurrados e tidos como lerdos e otários.

Calma gente! O valor de se construir uma vida em sociedade – que diferente do “estado de natureza”, preconizado pelos filósofos políticos da modernidade –, para que possamos viver sem guerrear todos contra todos, passa pelo respeito, cortesia e atenção também nos ônibus. Chamar alemães de “frios”, franceses de chatos xenófobos, asiáticos de “kantianos otários”, italianos de grossos e arrogantes é algo que precisa ser repensado, pois diante do grau de civilidade que estes povos alcançaram – pelo menos cotidianamente –, não pisam, nem empurram os seus iguais em suas jornadas diárias, isto, pois valorizam a vida em sociedade, construída a duras penas, com contribuições e concessões mais ao modo comprometido do porco, que do mero envolvimento da galinha, tal como na parábola que leva o nome destes dois animais.
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