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Sob Missão

Se a fonte da submissão popular, leiga de um modo geral, aos médicos é a falta de instrução e informação, qual será, então, a fonte da submissão dos enfermeiros? A estes não se aplicam a falta de instrução e de informação, sendo devidamente formados na mesma academia com a diferenciação, é claro, de função, estando estes últimos, junto com os técnicos e auxiliares, nas trincheiras da saúde pública, com os cuidados e administração das medicações e procedimentos aos enfermos. Tentaremos aqui refletir se não está abaixo da missão (sob missão) dos enfermeiros a divinização dos médicos, que mortais erram e precisam de todo um quadro de profissionais – enfermeiros, fisioterapeuta, nutricionista, farmacêutico e afins – para que sua atividade de cura seja desenvolvida satisfatoriamente.

Ao observar, de modo hipotético, o que chamei de subserviência de alguns enfermeiros para com os médicos, me veio a seguinte reflexão. Será esta submissão fruto do medo e da falta de confiança na prática cotidiana da enfermagem? É possível pensar que esta prática, pode, dentre outras implicações, por em xeque a autonomia necessária ao exercício da enfermagem, diante também, de situações de risco iminente, o qual necessite da decisão que pode ou não salvar a vida do paciente e o médico diarista ainda não chegou para tomá-la?

Caso esse modo de proceder de um(a) ou outro(a) dos enfermeiros, um tanto servil, o for em virtude do receio de se indispor com a classe médica – mais especificamente com alguns destes – lembro que viver é correr riscos e ser profissional consciente exige tomar decisões e posicionamentos que nem sempre agradam a todos. Afinal, como diria um professor de filosofia que admiro muito no exercício de sua profissão, “não estamos aqui para concurso de Miss Simpatia”.

Será, ainda, isto fruto de uma reminiscente busca de favores herdada dos nossos ancestrais escravos, como preconizou Florestan Fernandes , que se imiscuiu ao tal “jeitinho” advindo de Portugal e solidificado no Brasil? Será que é esperado algum favor ou é um o tal endeusamento ao “doutor” pela grandiosidade de seus atos que ninguém, ninguém mesmo pode prescrever além dele!?.

Com essa recente conquista dos farmacêuticos, de poderem prescrever alguns remédios que não exigem receita médica – tais como analgésicos, medicamentos tópicos e fitoterápicos –, a questão fica ainda mais aclarada acerca da limitação e necessidade que os médicos têm de um quadro de profissionais para desempenhar sua função, não sendo, deste modo, autossuficientes.

Em conversa com o dentista que frequento, discutíamos sobre como outrora eram os médicos – como outros poucos profissionais, a exemplo dos do direito – eram os intelectuais de nosso país, dignos de toda honra. Hoje? Hoje alguns deles: digital de silicone para burlar o trabalho, agressão a paciente, reserva de mercado, entre outras.

Disto cabe refletir acerca do que se pensa ser respeito (o qual deve ser recíproco), hierarquia profissional (e não “submissional”) e as ações médicas e de enfermagem, sendo aquela referente às visitas, avaliações e prescrições do quadro clínico e medicamentoso do paciente (o que pensam alguns, ser excessivo), e esta, a dos enfermeiros, junto com os técnicos e auxiliares, se ocupando da ação direta na administração dos medicamentos, banhos, cuidados gerais e afins.

De modo distinto do senso comum – povo – é devido que essa prática de endeusamento dos médicos – doutores, que em sua esmagadora maioria, só possuem graduação, pelo povo em geral, leigo sem estudo qualificado, até que este, enfim, se esclareça e perceba essa divinização – não seja a mesma dos profissionais da enfermagem, estes que não são frustrados porque não são médicos, mas estão no complexo e agitado (para ser brando) cotidiano dos hospitais de nosso país.

Por Fernando Gramoza
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